quinta-feira, 17 de maio de 2012

Um cavalheiro nunca se atrapalha

Quando em Setembro de 1987 te conheci, ainda tinhas 5 anos. Fazias os 6 no dia 28 de Dezembro. Eras um menino lindo, doce e meigo. Já estavas na escola, mas a tua grande frustração consistia em te obrigarem a fazer muitos grafismos e o que tu querias mesmo era aprender a ler e a escrever, depressa.
Um dia chegaste ao pé de mim e convidaste-me para ir à festa do teu Aniversário. Fiquei feliz e, claro, que aceitei. Perguntei-te onde é que moravas e como é que eu encontrava a tua casa. Deste-me a resposta própria de um cavalheiro, que nunca se atrapalha e demonstra ter um conhecimento profundo, no que concerne a posições geográficas: "...Não tem nada que saber, Edite. Vais sempre pela rua do Chaby e, quando chegares a uns prédios lá mais à frente, vês as janelas de uma cozinha, que têm umas cortinas às pintinhas azuis: é aí que eu moro.
Fiquei elucidada e, acima de tudo, a lembrança desta ingenuidade é que nos permite, de vez em quando, equilibrar os pratos da balança que, no fundo, representam a vida.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Coração de Leão


Em vez de publicar o nome das crianças, preferi atribuir-lhes símbolos que faziam todo o sentido para mim, porque os caracterizavam na realidade. E foi asssim que, após falar da Joaninha Alegre, chegou o momento do Coração de Leão.
Não que este tivesse um ar assustador ou se lhe ouvisse qualquer rugido, mas o facto é que o seu coração era tão grande, tão grande, que tudo o que era dele, como brinquedos, livros ou jogos podia ser também de todos os outros meninos. Nunca se zangava e estava sempre disposto a partilhar as suas coisas com todos.
Os seus olhos grandes e sonhadores deixaram-me a garantia de que, pela vida fora, continuaria a ser o Coração de Leão.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alegre como as joaninhas

Não sei a data certa, mas já lá vão cerca de vinte e cinco anos desde o dia em que me deparei com os teus olhinhos doces e, simultaneamente, malandros, como que a provocar-nos e a dizer-nos "...olha que estou aqui. Posso parecer um anjo, mas não sou!...Depois, não digas que não te avisei...". Mas, tinhas realmente muito de anjo. Claro que eras uma criança brincalhona, mas bem educada e tinhas uma particularidade que me  encantava: irradiavas alegria, parecendo sempre uma joaninha a saltar de flor em flor, para agradecer a dádiva  por estares viva. Para além destas características, eras uma criança meiga, simples, com o teu lugar bem definido no teu meio envolvente, sem nunca precisares de exposição, até porque eras dotada de um sentido natural de partilha que fazia de ti a pessoa certa para construir um mundo melhor e mais justo. Foi para mim gratificante ter-te conhecido e desejo-te as maiores felicidades do Mundo.

Encontros Pontuais I

Há épocas da nossa vida particularmente felizes, devido a circunstâncias várias que nos deixam com um sentimento enorme de gratidão e, talvez por isso, com uma capacidade emocional de voar. Penso que foi o que me aconteceu acerca de vinte e cinco anos, quando tive oportunidade de trabalhar com um grupo de crianças, entre os 6 e os 12 anos.
Resolvi agora escrever uma série de Encontros Pontuais, que mais não são que uma revisitação a lugares seguros da nossa memória onde ainda podemos sentir a ternura das crianças que, de tão genuína, se torna eterna e, também, o despontar de um sentimento que já tem muito de amizade e que acontece entre os adultos e os jovens de mais de 10 anos e que nos traz sempre o esboço de um sorriso aos lábios.